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EXPLICAÇÃO, COMPREENSÃO E DETERMINISMO NA SOCIOLOGIA DE PIERRE BOURDIEU1



EXPLANATION, UNDERSTANDING AND DETERMINISM IN SOCIOLOGY OF PIERRE BOURDIEU



Gabriel Peters


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Resumo

O artigo situa a sociologia de Bourdieu na duradoura controvérsia acerca da natureza da explicação causal e da compreensão interpretativa nas ciências sociais, com foco sobre o problema clássico da suposta (in)compatibilidade entre tais procedimentos. Primeiramente, o texto apresenta o argumento de que a perspectiva praxiológica e relacional do universo societário, advogada pelo sociólogo francês, leva-o não apenas a se juntar ao campo compatibilista do debate, mas a sustentar mais radicalmente a identidade entre explicação e compreensão. Em seguida, o estudo defende também que esta proposta teórico-metodológica está atrelada a uma distinção frequentemente negligenciada entre os comentadores da obra de Bourdieu, qual seja, aquela entre o objetivismo, um modo de conhecimento do social que ele procura integrar e superar em sua praxiologia estrutural, e o determinismo, adotado pelo autor como um princípio científico fundamental e, ao mesmo tempo, uma ferramenta ético-política potencialmente emancipatória que é legada por sua sociologia reflexiva.


Palavras-chave

Pierre Bourdieu. Teoria da Prática. Explicação. Compreensão. Determinismo.

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Abstract

The article locates Bourdieu’s sociology within the lasting controversy concerning the nature of causal explanation and interpretive understanding in the social sciences, focusing on the classical problem surrounding the alleged (in)compatibility between these procedures. First, the text presents the argument that the French sociologist’s praxeological and relational perspective on the social universe leads him not only to join the compatibilist field of the debate, but to sustain, more radically, the identity between explanation and understanding. The study then defends that this theoretical-methodological proposal is tied to a distinction that is often ignored among the commentators of Bourdieu’s oeuvre, namely that between objectivism, a mode of knowledge of the social which he intends to integrate and overcome in his structural praxeology, and determinism, adopted by the author as a fundamental scientific principle and, at the same time, a potentially emancipatory ethico-political tool bequeathed by his reflexive sociology.


Keywords

Pierre Bourdieu. Practice Theory. Explanation. Understanding. Determinism

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1 Introdução

A caracterização dos procedimentos metodológicos da explicação por causas (erklären) e da compreensão de significados (verstehen) constitui uma das principais fontes de controvérsia na história da sociologia, controvérsia que pode ser remontada à sua “dupla fundação” (VANDENBERGHE, 2010, p. 45), pelo positivismo naturalista de Comte e pela tradição historicista das “ciências da cultura” ou do “espírito” (Geisteswissenschaften), inaugurada por Dilthey. O problema teórico-metodológico central que avulta neste debate, intimamente associado à questão metateórica quanto ao status epistêmico das ciências humanas, diz respeito à alegada compatibilidade ou incompatibilidade entre essas duas formas de se abordar a agência humana e a vida social. Partindo de breve apresentação histórica de alguns dos momentos decisivos no transcurso desse debate, o presente artigo concentra-se sobre o modo como a praxiologia estrutural de Bourdieu enfrenta esta velha problemática, argumentando que o sociólogo francês não apenas se situa no campo compatibilista ou complementarista da discussão, mas também sustenta, de modo mais radical, a identidade entre explicação e compreensão.

Em seguida, o estudo conecta a discussão sobre explicação e compreensão a um exame mais detido do status, amiúde mal compreendido, da ideia de determinismo na sociologia de Bourdieu. A esse respeito, pretendo recuperar a fundamental distinção - frequentemente ignorada nas apreciações críticas do trabalho do sociólogo francês - entre o objetivismo como modo de conhecimento do mundo social, de um lado, e o determinismo como princípio guia metodológico do trabalho sociocientífico, de outro. Meu objetivo será demonstrar como Bourdieu busca ir além dos “limites objetivos do objetivismo” (BOURDIEU 1977, p. 1) por meio da elaboração de uma praxiologia estrutural fundada na dialética entre as dimensões objetiva e subjetiva do universo societário, ao mesmo tempo em que abraça, no plano metateórico, o determinismo como condição de possibilidade do fazer científico (e, por extensão, científico social). Complexificando tal leitura, entretanto, a última seção do texto defende que nosso autor empresta ao princípio do determinismo uma significação não apenas metodológica, mas também ético-política: segundo Bourdieu, longe de levar apenas a uma intelecção impotente e resignada dos mecanismos determinantes da conduta social, uma sociologia “determinística” ofereceria aos atores ferramentas intelectuais de contra-atuação sobre estes mecanismos e, assim, a possibilidade de alcance de uma margem de liberdade em relação a eles.



2 A inescapável compreensibilidade do ser (humano): curta história de uma longa controvérsia

As variegadas contribuições que compõem um volume recente acerca das principais tendências da teoria social contemporânea (GIDDENS; TURNER, 1999) constituem apenas algumas amostras de um leque imensamente mais numeroso de exemplos da interpenetração entre concepções teóricas e metateóricas (ou epistemológicas) que marca os debates das ciências sociais, interpenetração reconhecível já nas obras de seus precursores e fundadores. A óbvia ausência de um paradigma consensualmente estabelecido e capaz de subsidiar um trabalho do tipo “resolução de quebra-cabeças”, típico da “ciência normal”, segundo Kuhn (1975), é um dos motivos que estão na base da diversidade impressionante de posições acerca do estatuto epistêmico do conhecimento sócio-histórico, diversidade que explica parcialmente a intrusão sistemática de considerações metateóricas nos próprios esforços de teorização substantiva desenhados nesse terreno intelectual. Tais esforços estão enredados, neste sentido, não apenas em querelas acerca das proposições e conceitos mais adequados à caracterização ontológica abstrata ou ao estudo empírico do mundo societário, mas também em polêmicas acerbas a respeito da própria roupagem epistemológica (efetiva ou desejada, descrita ou proposta como ideal regulador) de empreendimentos dessa natureza.

As atribuições de identidade epistemológica à sociologia foram tradicionalmente levadas a cabo tendo-se em vista a emulação ou contraste das propriedades lógicas e metodológicas que marcariam o conhecimento científico-natural. Em função dessa circunstância, a disciplina nasceu sob o signo de uma “dupla fundação”, ao mesmo tempo nacional e epistemológica, que terminou por estabelecer os parâmetros dos debates ulteriores acerca de seu estatuto gnosiológico. De um lado, o positivismo de Comte, na França, fundou a divisão de paladinos do monismo ou naturalismo epistemológico, isto é, da tese de que as ciências sociais devem operar segundo os mesmos ditames metodológicos vigentes nas ciências da natureza. O historicismo hermenêutico de Wilhelm Dilthey, na Alemanha, fincou por sua vez as bases de uma posição epistemicamente dualista ou separatista: devido a particularidades iniludíveis da vida societária resultantes de seu caráter compreensivo ou hermenêutico, o tipo de conhecimento próprio ao estudo da atividade humana e de seus produtos culturais poderia ser fidedignamente retratado como científico, mas de uma espécie de cientificidade cujo status gnosiológico seria radicalmente distinto daquele do conhecimento científico-natural.

Em virtude da mencionada interpenetração entre as dimensões epistemológica e teórico-metodológica das ciências sociais, as diversas perspectivas metateóricas sobre a cientificidade (e o tipo de cientificidade) da sociologia também estiveram, desde cedo, atreladas a discordâncias fundamentais quanto à descrição ontológica das entidades e processos constitutivos do universo social, bem como quanto às diretrizes metódicas concebidas como mais profícuas para a pesquisa empírica desse universo. Dentre estes problemas ontológicos e metodológicos, aquele que mais nos interessa no presente texto diz respeito às diferentes visões acerca do papel desempenhado pelas intenções, crenças e orientações práticas subjetivamente mobilizadas pelos atores individuais na produção de suas condutas, bem como na relação entre tais condutas e os processos de reprodução e transformação dos contextos sócio-históricos mais amplos em que estes agentes estão imersos.

Se, por um lado, nenhum cientista social chegaria ao ponto de negar a assertiva de que, diversamente dos fenômenos estudados pelas ciências naturais, os atores humanos que compõem o objeto da sociologia são movidos por intencionalidade e possuem concepções e representações (inter)subjetivas acerca de seu próprio comportamento e dos seus múltiplos ambientes de ação, sempre houve uma marcada discordância acerca das implicações desse diagnóstico para a inteligência sociológica de estruturas e processos coletivos. A ideia segundo a qual as ciências humanas adquiririam uma singularidade epistemológica radical em função de lidarem com “animais auto-interpretantes (sic)” (TAYLOR, 1995, p. 45), criaturas que atribuem significados (inter)subjetivos a suas próprias ações e às constelações societárias em que estão imersos, remonta no mínimo às teses preconizadas por Giambattista Vico no século XVIII. Em sua Scienza Nuova, o sábio napolitano inaugurara uma espécie de humanismo epistemológico que contrapunha a exterioridade insuperável do modus cognoscendi científico-natural ao acesso à vida interior de atores conscientes no estudo das práticas e produtos do anthropos (VICO, 1999; BERLIN, 1982; MERQUIOR, 1983).

Tal tema veio à baila com força na famosa controvérsia acerca do estatuto das Geisteswissenschaften em face das ciências da natureza (Naturwissenschaften) que chacoalhou a academia alemã no fim do século XIX e início do século XX (OUTHWAITE, 1985). Dilthey ganhou proeminência nesse debate como defensor de um dualismo metodológico radicalizado que era calcado precisamente em uma distinção rígida entre os procedimentos da explicação, própria das ciências naturais, e da compreensão, modo de inteligibilidade exclusivo às ciências do espírito. Ele passou à história da disciplina também como teórico da empatia, ou transposição psíquica para outras mentes, como senda de iluminação das ações desenroladas em cenários sócio-históricos diversos, concebidos, sob influência de Hegel, como exteriorizações do espírito humano que seriam tornadas inteligíveis pela reativação psíquica dos significados subjetivos que elas coagulam historicamente (RICOEUR, 1981).

Max Weber esposou uma espécie singular de via media naquela contenda metodológica, delineando uma perspectiva que se afasta tanto do naturalismo positivista, cego às incontornáveis implicações metodológicas do caráter impregnado de significado do mundo social, quanto do dualismo epistêmico mais radical de luminares do historicismo germânico, como Rickert e o já citado Dilthey. Reconhecendo a singularidade do empreendimento científico social, Weber não concluía daí que a pesquisa sociológica lançaria mão de procedimentos metodológicos radicalmente distintos daqueles presentes nas ciências naturais – por exemplo, substituindo a explicação causal empiricamente testada por alguma forma de intuicionismo empático puro e simples. Com efeito, a principal manobra metodológica da sua Verstenhende Sociologie foi a de tomar a compreensão/interpretação da ação social, isto é, a captação do sentido subjetivamente visado pelo agente, como inerente à explicação de “seu curso” e “seus efeitos” (WEBER, 2000, p. 3). Além disso, conquanto reconhecesse a potencial utilidade heurística da transposição empática para outra vida mental no esforço de compreensão das condutas dos sujeitos/objetos da análise sociológica, Weber não sustentava ser a compreensão dependente desse expediente, uma vez que a imputação sociocientífica de sentido seria, no mais das vezes, resultado de um trabalho inferencial, baseado no inventário histórico sociológico de informações relativas ao contexto situacional e às consequências de um dado curso de ação2. Portanto, no que diz respeito ao tema da (in)compatibilidade entre Erklären e Verstehen, explicação causal e compreensão interpretativa, Weber situa-se no front daqueles que as concebem não como mutuamente excludentes e, assim, próprias de âmbitos radicalmente discrepantes de inquérito científico, mas, ao contrário, como operações complementares da análise sociológica.

Com um acento especial sendo dado ao tema do recurso à empatia, o pleito em favor da compatibilidade entre explicação e compreensão nas ciências sociais também assumiu vulto nos escritos de filósofos lógico-empiristas preocupados com a defesa de uma concepção unificada de ciência, tais como Carl Hempel (1974) e Ernest Nagel (1961). O leitmotiv de suas argumentações consistia no esforço em demonstrar que os atributos de significação próprios à ação humana social e historicamente situada, embora sem paralelo no âmbito da natureza, não constituiriam obstáculos insuperáveis a uma posição monística em epistemologia das ciências sociais, desde que as explicações ancoradas no trabalho de interpretação de tais atributos obedecessem às exigências lógicas e metodológicas inerentes à ideia de ciência. Com efeito, em sua reflexão sobre a revivescência imaginativa de estados subjetivos dos agentes cuja conduta o historiador e o cientista social pretendem explicar, Hempel (1974) sustenta que esse procedimento não pode, per se, ser tomado como explanatório, mas, no máximo, como um estratagema heurístico capaz de sugerir hipóteses explicativas adequadas, as quais deveriam ser submetidas ao controle empírico. Isto significa que a validade dessas hipóteses não poderia ser asseverada pura e simplesmente pela identificação psicológica entre sujeito pesquisador e sujeitos pesquisados, mas teria de estar empiricamente ancorada no entrecruzamento de dados factuais acerca do contexto e dos resultados das ações, informações nas quais se basearia a imputação de sentido em circunstâncias nas quais a empatia não fosse factível: “não é preciso ser César para compreender César”, para citar Weber novamente (2000, p. 4). No fim das contas, a posição de figuras de proa do empirismo lógico sobre a compreensão empática (“útil, mas não indispensável”) foi condensada pitorescamente por Otto Neurath, que sustentou ter ela a mesma importância que uma xícara de café consumida pelo cientista durante suas investigações3 (NEURATH, 1973, p. 357).

A defesa de uma posição contrária à combinação entre explicação causal e entendimento interpretativo não depende necessariamente, no entanto, de uma visão da compreensão calcada na “reprodução psíquica” (Dilthey) ou na “transferência intencional sobre o outro” (Husserl). Com efeito, as décadas posteriores foram palco não de um arrefecimento do debate, mas de novas investidas por parte da frente anticompatibilista, as quais não mais recorriam à empatia, mas a um retrato do ser humano como animal linguístico. No contexto intelectual alemão, alguns motivos do historicismo de Dilthey foram reformulados ao modo heideggeriano por Gadamer (1997), que rechaçou a noção diltheyana de compreensão como redesempenho psíquico de vivências alheias ao centrar-se sobre a linguagem como verdadeiro meio de intersubjetividade. Um pouco depois, o filósofo Peter Winch (1970), na academia britânica, fez uso da pragmática da linguagem do último Wittgenstein para tentar introduzir novamente um radical divisor de águas entre ciências naturais e conhecimento social ao defender o radicalismo da distinção entre um relato causal-explicativo e a elucidação do significado de uma ação tal como ele é engendrado segundo as regras da cultura, “jogo de linguagem” ou “forma de vida” do ator.



3 Enfim Bourdieu vint: preliminares epistemológicas

Como Weber e Hempel, porém de modo mais radical, Bourdieu insere-se na tradição compatibilista no que toca à possibilidade de conjunção entre a explicação por causas e a compreensão de significados na análise sociológica. Apoiado em um modelo que articula um “momento objetivista”, devotado à reconstrução analítica das estruturas sociais objetivas no seio das quais os atores individuais são socializados e atuam, a um “momento subjetivista”, ocupado com o diagnóstico de como as disposições de conduta subjetivamente cultivadas no seio de tais espaços sociais objetivos contribuem para reproduzi-los quando mobilizadas na produção das práticas dos atores, Bourdieu termina por sustentar que “compreender e explicar são a mesma coisa” (BOURDIEU, 2003, p. 699-700).

Já não é nenhum mistério que o sociólogo francês, trabalhando sob a égide da tese bachelardiana de que “os obstáculos à cultura científica sempre se apresentam sob a forma de pares” (apud BOURDIEU; WACQUANT, 1992, p. 73), formulou e burilou seu quadro teórico-metodológico de análise da vida societária com vistas à superação de algumas das mais tenazes dicotomias que fraturam a paisagem da ciência social. Com efeito, o próprio programa de superação da antinomia explicação/compreensão está fundado sobre a proposta de uma transcendência epistêmica do que ele vê como falsa oposição entre as alternativas radicais do positivismo naturalista e do dualismo compreensivo. De um lado, ao reconhecer que as intenções, crenças e orientações práticas de conduta subjetivamente mobilizadas pelos atores estão constitutivamente envolvidas na reprodução histórica do mundo social, Bourdieu se põe a léguas de distância de abordagens que, ao unir holismo e naturalismo, sustentaram que os sistemas sociais, sendo parte do domínio da natureza, estariam submetidos a leis necessárias de funcionamento e evolução, as quais atuariam independentemente de interesses e disposições subjetivas (tomados então como irrelevantes do ponto de vista explicativo).

Por outro lado, Bourdieu afirma que os críticos do positivismo tendem a partilhar com seus adversários uma “falsa representação da epistemologia das ciências naturais” (BOURDIEU et al., 2000, p. 16), a qual seria a fonte da tese de que as particularidades da vida societária colocariam barreiras incontornáveis a um método sociológico que constituísse apenas uma instância particular dos princípios lógicos e metodológicos nos quais se basearia qualquer ciência. Assim, sem deixar de reconhecer a dimensão hermenêutica (do grego hermeneus, que significa “intérprete”) do objeto da sociologia, mas sublinhando a unidade dos princípios do método científico para além das divisões entre ciências naturais e ciências humanas, o sociólogo francês trilha a via media de um monismo “não positivista qualificado, fenomenologicamente informado e hermeneuticamente sensível” (VANDENBERGHE, 2010, p. 48).

O último dos atores discutido na seção anterior, o filósofo Carl Hempel, pode ser elencado entre os muitos que concebem o método científico exclusivamente como lógica procedural de validação ou justificação de enunciados acerca do real, concepção derivada da distinção epistêmica entre contexto de descoberta e contexto de justificação, originalmente formulada nos escritos de Hans Reichenbach (SALMON, 1998)4. Bourdieu, entretanto, desde A profissão de sociólogo, pretende arrolar não apenas os alicerces de uma arte da prova (ars probandi), mas também inculcar nos seus leitores uma arte da invenção (ars inveniendi) especificamente sociológica, recusando-se a abandonar o terreno da descoberta à “intuição criadora” pura e simples – na expressão de Bergson, que até Popper (1972, p. 32), um estranho companheiro, cita com aprovação em sua discussão sobre os caminhos infinitamente variados e supostamente imprevisíveis da descoberta. É em função disso que as teses ontológicas e os princípios explanatórios que formam a arquitetura de sua teoria da prática consubstanciam-se, segundo a orientação metodológica e disposicional que ele aduz ao papel das formulações teóricas em Sociologia, em um aparato de princípios inventivos da prática de investigação social empírica (BRUBAKER, 1993).

A ars inveniendi delineada na obra de Bourdieu tem como alicerce uma ontologia e epistemologia relacionais (BOURDIEU, 1990b), em contraposição à visão que ele denomina substancialista. Uma perspectiva substancialista do mundo social estaria implicada no próprio acervo de instrumentos linguísticos do conhecimento ordinário, mais propenso a designar coisas do que relações e tendente a assimilar os fatos sociais unicamente às realidades substanciais e materialmente visíveis que se oferecem à intuição direta. Na perspectiva do ex-professor do Collège de France, a maior contribuição científica legada pelo estruturalismo francês foi o combate a tal substancialismo, propiciado pela transposição do pensamento relacional das ciências naturais (onde ele teria sido historicamente diagnosticado por Cassirer) para as ciências humanas, transposição que teria como corolário a identificação dos fenômenos sociais não tanto com “coisas” ou “pessoas”, mas primordialmente com relações (as quais não se reduziriam, entretanto, às interações face a face entre os indivíduos estudados).

Ao alterar a clássica fórmula hegeliana de maneira a sustentar que “o real é relacional” (BOURDIEU; WACQUANT, 1992, p. 97), a sociologia bourdieusiana implica necessariamente o primeiro dos atos epistemológicos característicos de qualquer ciência segundo Bachelard, qual seja, a ruptura com a representação imediata do universo societário e com as abordagens que sucumbiriam às armadilhas da ilusão substancialista em suas versões individualista (e.g., teoria da escolha racional), holista (e.g., estrutural-funcionalismo, marxismo estruturalista) ou interacionista (e.g., interacionismo simbólico, etnometodologia). O autor passa a considerar a realidade social, assim, como um espaço estruturado por relações objetivas invisíveis, as quais “não podemos mostrar ou tocar e que precisamos conquistar, construir e validar por meio do trabalho científico” (BOURDIEU, 1996, p. 9), tríplice trabalho bachelardiano ancorado no pressuposto de que as entidades historicamente operantes em um dado espaço social (um ator, uma prática, um bem de consumo simbólico) obtêm suas características, funções e significados específicos de sua inserção em um regime relacional particular no qual se definem em oposição aos demais elementos integrantes do mesmo sistema.



4 A transcendência praxiológica da antinomia objetivismo/subjetivismo

A “ruptura epistemológica” (Bachelard) com as representações de senso comum do mundo social e a mobilização de uma perspectiva relacional do mesmo como espaço objetivamente estruturado de relações entre agentes diferentemente posicionados constituem valiosas aquisições heurísticas de um modo objetivista de conhecimento do social, manifesto, por exemplo, no estrutural-funcionalismo durkheimiano ou no estruturalismo simbólico de Levi-Strauss. Na perspectiva de Bourdieu, entretanto, ambos os procedimentos metodológicos constituem passos necessários, mas não suficientes, para a objetivação sociológica dos mecanismos de produção e reprodução da vida societária; o diagnóstico das formações sociais como estruturas de relações objetivas tem de ser complementado, segundo ele, pela investigação dos processos por meio dos quais tais estruturas são historicamente reproduzidas através das práticas subjetivamente impulsionadas dos agentes que as habitam e vivificam. Na ausência da recuperação analítica das disposições práticas de conduta, graças às quais a agência dos indivíduos contribui causalmente para a continuidade histórica dos padrões de comportamento e sistemas de relações que caracterizam uma dada configuração societária, as perspectivas objetivistas são levadas à adoção de uma visão reificada ou naturalizada das estruturas sociais, tomadas seja como padrões formais a-históricos, seja como entidades ontológicas autônomas capazes de “agir” à maneira de agentes históricos concretos (BOURDIEU, 1990a).

O momento subjetivista irrompe na cena precisamente para evitar o deslize para tal visão hipostasiada do universo social. Não obstante, se Bourdieu (BOURDIEU; WACQUANT, 1992) aproxima-se de perspectivas subjetivistas ao caracterizar as estruturas sociais em termos de sua constituição processual contínua, dos modos pelos quais estas são historicamente reproduzidas ou transformadas através das práticas de agentes interessados e hábeis, o autor francês afasta-se delas ao perseguir a captura das fontes sociogenéticas dos interesses e habilidades que impulsionam e capacitam os atores (BOURDIEU, 2001c), interesses e habilidades reunidos nessa “subjetividade socializada” que é o habitus (BOURDIEU; WACQUANT, 1992, p. 126).

Dessa forma, no edifício teórico-metodológico erguido por Bourdieu, o repertório dos instrumentos conceituais e explicativos mais úteis legados pelos modos objetivista e subjetivista de conhecimento passa a ser empregado em um quadro de referência novo, que toma ambas as maneiras de investigação como “momentos” de um método de pesquisa tecido precisamente para capturar a relação dialética entre os percursos biográficos dos atores individuais e a reprodução/transformação de estruturas coletivas, tal como essa relação é corporificada em práticas sociais. Fazendo uso da noção de prática formulada por Marx nas suas Teses sobre Feuerbach (MARX, 2000), Bourdieu edifica seu esquema analítico em torno dessa categoria, tomada como o locu sócio ontológico em que estão relacionadas e unificadas as instâncias referidas nas clássicas antinomias da teoria social e da filosofia, como indivíduo/sociedade, ação/estrutura, material/ideal, mente/corpo, sujeito/objeto, dentre outras (PARKER, 2000).

A perspectiva praxiológica está alicerçada, em princípio, na distância objetivista que rompe com as representações espontâneas do agente de modo a apreender as propriedades da constelação estrutural em que ele/a está imerso/a como uma posição e que coage, perceptível ou imperceptivelmente, suas ações, experiências e representações. No entanto, este procedimento objetivista é complementado por uma tentativa de superação dessa distância mesma em um momento subjetivista de recuperação das intenções e significações práticas que animam as mentes e corpos dos atores. Nesse momento, a lucratividade analítica do estágio objetivista não é descartada, mas transcendida ou “suprassumida” (Aufgehoben, se quisermos empregar uma expressão hegeliana de difícil tradução), isto é, conservada e superada em um quadro analítico tecido para dar conta da “dupla verdade” do mundo social. Tal “dupla verdade” exigiria, assim, uma lente socioanalítica também dupla e habilitada a capturar a “necessidade imanente” (BOURDIEU, 1990b, p. 302) ao universo societário (a qual o subjetivismo seria incapaz de apreender), sem deslizar, no entanto, para a hipóstase das formações societárias típicas das abordagens objetivistas, cegas ao fato de que os desenvolvimentos históricos desenrolados em tais formações estão ontologicamente fundados em práticas subjetivamente impulsionadas por interesses específicos na sua propulsão e calcadas em habilidades e recursos particulares no seu desempenho - interesses e capacidades que são, no entanto, socialmente adquiridos como parte de diversos habitus no curso de biografias sócio historicamente situadas. Summa summarum: estamos diante de um processo circular crônico de constituição dos agentes pela sociedade e da sociedade pelos agentes.



5 A identidade entre explicação e compreensão

Em largas pinceladas, eis seu projeto de ultrapassagem dos limites do objetivismo e do subjetivismo por meio da utilização metodologicamente ordenada e combinada das ferramentas heurísticas mais valiosas de tais modos de conhecimento. Ainda que sublinhando a relação de interdeterminação causal entre as condutas individuais propelidas pelas disposições do habitus e os campos de relações objetivas que proveem o contexto estrutural de socialização, atuação e experiência dos agentes, a praxiologia relacional de Bourdieu prega um uso ordenado e hierarquizado dos recursos próprios aos momentos objetivista e subjetivista, conferindo precedência ao primeiro desses estágios sobre o segundo. Neste sentido, em contraposição a abordagens compatibilistas que, ainda que não pretendam reduzir a ciência social à sua dimensão interpretativa, postulam para estas um ponto de partida necessariamente hermenêutico (GIDDENS, 1978), o autor francês sustenta que a compreensão empática ou hermeneuticamente fundada do sentido subjetivo de dada conduta, tal como vivenciada e representada pelo próprio agente, jamais poderia constituir o caminho heurístico primeiro para sua explicação causal; ao contrário, seria somente a reconstrução do campo de relações objetivas em que um dado ator se insere como uma posição e perfaz uma trajetória o que constituiria o procedimento analítico que permite o acesso à sua experiência subjetiva e aos móbeis internos de suas ações. Trata-se, assim, de iniciar a investigação sempre pela floresta de modo a compreender as árvores.

No que toca à relevância de sua perspectiva para o debate acerca da compatibilidade ou incompatibilidade epistemológica entre a compreensão interpretativa e a explicação causal nas ciências sociais, cumpre reconhecer que a prioridade genética da sociedade sobre os agentes, cujas disposições estruturantes dos ambientes sociais de que fazem parte são necessariamente disposições estruturadas (geneticamente atadas ao desenho de uma trajetória posicional nesses ambientes), leva Bourdieu a propalar uma compatibilidade calcada não na tese da complementaridade entre procedimentos explanatórios e compreensivos, mas na asseverada identidade destes, condição para que o cientista social seja capaz de colocar-se, em pensamento, na situação dos indivíduos pesquisados:

Tentar situar-se em pensamento no lugar que o pesquisado ocupa no espaço social para o necessitar a partir desse ponto...não é executar a ‘projeção de si em outrem’ da qual falam os fenomenólogos. É dar-se uma compreensão genérica e genética do que ele é, fundada no domínio (teórico ou prático) das condições sociais das quais ele é o produto: domínio das condições de existência e dos mecanismos sociais cujos efeitos são exercidos sobre o conjunto da categoria da qual eles fazem parte (as dos estudantes, dos operários, dos magistrados, etc.) e domínio dos condicionamentos inseparavelmente psíquicos e sociais associados à sua posição e à sua trajetória particulares no espaço social. Contra a velha distinção diltheyana, é preciso ser dito que compreender e explicar são a mesma coisa (BOURDIEU, 2003, p. 699-700; grifos do autor).

A menção ao caráter “genérico” da explicação-compreensão das condutas e experiências de um agente refere-se à necessidade de localizar quaisquer atores individuais no “conjunto da categoria da qual eles fazem parte”, sendo tais grupos ou categorias definidos conforme a partilha de condições societárias de existência associadas à ocupação de uma posição idêntica ou semelhante na estrutura de distribuição de recursos materiais e simbólicos (formas de capital) operantes no espaço social. Tais condições estão, por sua vez, na base da geração de disposições e interesses práticos (i.e., de habitus) homólogos entre os indivíduos pertencentes a tais grupos, ainda que tal “pertencimento” não seja necessariamente reconhecido de modo explícito. Por outro lado, a referência à qualidade “necessitante” da elucidação das práticas do agente oferece um testemunho de que a abordagem de Bourdieu, ainda que se coloque contra o objetivismo, não é antideterminista, se por determinismo entendemos a tese, operante como premissa metodológica e/ou postulado ontológico, de que não existem fatos incausados em quaisquer esferas do mundo fenomênico, incluindo-se aí a própria esfera da vida social. Essa perspectiva é explicitada pelo autor em uma passagem com claras ressonâncias durkheimianas:

Como qualquer ciência, a sociologia aceita o princípio do determinismo, entendido como uma forma do princípio da razão suficiente. A ciência, que deve tornar compreensível as coisas como elas são, postula por isso mesmo que nada existe sem uma razão de ser. O sociólogo acrescenta social: sem razão de ser propriamente social. (...) O grau em que mundo social nos aparece como determinado depende do conhecimento que temos dele. Ao contrário, o grau em que o mundo é realmente determinado não é uma questão de opinião; enquanto sociólogo, eu não tenho que ser ‘a favor do determinismo’ ou ‘a favor da liberdade’, mas tenho que descobrir a necessidade, no caso dela existir, no lugar em que ela se encontra. Dado o fato de que todo progresso no conhecimento das leis do mundo social aumenta o grau de necessidade percebida, é natural que, quanto mais avançada é a ciência social, maior a acusação que recebe de ser ‘determinista’. Mas, contrariamente às aparências, é aumentando o grau da necessidade percebida e oferecendo um conhecimento melhor das leis do mundo social que a ciência social proporciona maior liberdade. Qualquer progresso sobre o conhecimento da necessidade é um progresso na liberdade possível (...) Uma lei ignorada é uma natureza, um destino (é o caso da relação entre o capital cultural herdado e o sucesso escolar); uma lei conhecida aparece como uma possibilidade de liberdade (BOURDIEU, 1983a, p. 36).

Teremos mais a dizer acerca da distinção fundamental entre o objetivismo como modo de conhecimento do mundo social e o determinismo como princípio-guia metodológico do trabalho sociocientífico (aliás, de toda e qualquer ciência) segundo Bourdieu, distinção frequentemente ignorada na apreciação crítica do seu trabalho. Também trataremos, em maior detalhe, da tese de que a objetivação sociológica dos mecanismos determinantes dos processos sociais oferece aos atores embebidos em tais processos não apenas uma intelecção impotente e resignada daqueles mecanismos, mas a possibilidade de alcance de uma margem de liberdade em relação a eles. Isto porque, diferentemente do que acontece no âmbito dos processos naturais, as “necessidades” vigentes no mundo societário consistem em regularidades historicamente circunscritas a contextos específicos e dependentes, em sua operação, da mediação das práticas subjetivamente orientadas dos agentes sociais. Ergo, mudanças no conhecimento possuído acerca das estruturas da vida coletiva, inclusive de suas “necessidades” social e historicamente situadas, podem acarretar transformações nessas estruturas e necessidades mesmas, em virtude do papel causal desempenhado pelo (des)conhecimento do mundo social na constituição das práticas pelas quais esse mundo é permanentemente tecido por múltiplos atores.



6 A defesa de um determinismo não objetivista

No pensamento de Bourdieu, a articulação entre ação e estrutura não constitui propriamente uma transposição, para o terreno teórico-sociológico, da velha querela filosófica entre partidários do determinismo e do livre-arbítrio na descrição da conduta humana. A articulação entre as dimensões subjetiva e objetiva da vida social não se refere, na teoria bourdieusiana da prática, ao confronto entre a liberdade do agente (pelo menos se entendida como ausência de atributos determinados) e a(s) necessidade(s) imposta(s) por um universo social externo, mas ao papel estrutural, no sentido lógico, da agência subjetivamente impulsionada na explicação de fenômenos sociais. Por essa razão, é mister distinguir entre objetivismo e determinismo no glossário do autor francês. O objetivismo, definido de maneira larga, está corporificado em todas aquelas abordagens histórico-sociológicas que consideram a referência a condições e tendências estruturais coletivas como dados não apenas necessários como suficientes para a explicação de processos sociais. O universo de intenções e representações subjetivas dos atores poderia, assim, ser dispensado de saída (isto é, por uma premissa teórico-metodológica) do inventário de variáveis que conformam o explanans de quaisquer fatos sócio-históricos, sendo os indivíduos residualmente pensados como epifenômenos, condutores ou suportes (Bourdieu cita frequentemente a noção weberiana de Träger) de forças causais sobre as quais eles e elas não têm domínio ou consciência. O exemplo clássico dessa linha de raciocínio é o procedimento explanatório adotado por Durkheim em O Suicídio5 (2003).

Sendo crítico do objetivismo, Bourdieu não abandona, entretanto, o preceito de que os complexos causais de que brotam os processos sócio-históricos são irredutíveis às intenções e representações subjetivas dos indivíduos que estão neles imersos e, ao mesmo tempo, contribuem para constituí-los coletivamente. Este preceito de irredutibilidade explicativa implica o rechaço da “ilusão da transparência” de que seriam vítimas as “sociologias espontâneas” de senso comum, acarretando também a subscrição do que ele denomina, em A profissão de sociólogo, de “princípio da não-consciência (sic)” (2000b, p.134-135), artefato teórico-metodológico legado, segundo o autor, pelos três pais totêmicos da sociologia clássica: Marx, Durkheim e Weber. Apesar de Bourdieu haver qualificado crescentemente as inclinações cripto-objetivistas do texto supracitado, ele já deixava claro naquele livro que tais injunções metodológicas, ao contrário do que pensaram diversos autores pelo menos desde Durkheim, não teriam como corolário “reduzir a tarefa da explicação sociológica às dimensões de um objetivismo” (BOURDIEU et al., 2000, p. 29) que consideraria as ações individuais e seus impulsores subjetivos como explanatoriamente irrelevantes. Os agentes “não são meros suportes das estruturas sociais em que estão posicionados – eles adicionam algo específico, fazem uma diferença na cadeia de eventos e causações estruturais que levam às práticas sociais” (HAGE, 1994, p. 430). Assim, a superação da dicotomia subjetivismo/objetivismo refere-se, no pensamento de Bourdieu, à necessidade irrevogável de construção de modelos explanatórios do decurso histórico de processos societários que façam referência à contribuição causal específica: a) de ambientes previamente estruturados à intervenção dos agentes; b) das intenções, interesses e recursos subjetivos que os atores mobilizam na produção das suas ações; c) dos efeitos dinâmicos provocados pela interação entre os dois fatores supracitados.

O historiador Paul Veyne afirma que as explicações oferecidas pela investigação social empírica envolvem a referência à interação entre “matéria, liberdade e acaso” (VEYNE, 1998, p. 86). As dimensões da explicação histórico-sociológica idealizadas por Bourdieu correspondem, grosso modo, a cada um dos ossos que compõem o esqueleto da explicação histórica segundo Veyne, ainda que Bourdieu ofereça as noções de habitus e campo como inovações conceituais destinadas a dar um conteúdo teórico mais preciso a cada uma daquelas dimensões. Não obstante, em princípio, o sociólogo francês discordaria da caracterização veyneana do plano da ação intencional como terreno da “liberdade”6. Por um lado, sabemos que a historiografia de boa qualidade nunca reduz os agentes humanos a mônadas, indivíduos atomizados e não contaminados pelas constelações sociais em que atuam, fazendo-se, ao contrário, pródiga na descrição detalhada de tais ambientes coletivos, o que se constitui em cláusula indispensável para tornar inteligíveis as condutas dos personagens sobre os quais ela repouse. Entretanto, na maior parte dos casos pelo menos, a perscrutação das vicissitudes dos contextos sócio-históricos analisados é compatível com a crença “decisionista” em uma dimensão intocada - ainda que circunstancialmente coagida de modo variável - de livre-arbítrio dos sujeitos, isto é, na irredutibilidade última dos juízos individuais em relação às injunções das situações sociais em que os atores se encontram.

Contra esta atribuição de uma liberdade última ou “residual”, o projeto teórico-sintético de Bourdieu exigiria uma linha de investigação capaz de captar não apenas os processos de reprodução e transformação das formações sociais por meio das práticas dos atores individuais, mas também a face complementar de tais processos, isto é, a constituição social das disposições e orientações duráveis de conduta que conformam a personalidade destes atores, as quais seriam, neste sentido, capturadas pelo conceito de habitus; dessa forma, ele é infenso (BOURDIEU, 1990b) àquelas abordagens de críticos do objetivismo, como Gluckman e Leach, que buscaram superar as aporias da redução epifenomenista da agência à estrutura por meio da contraposição desta última a um terreno deterministicamente imaculado da ação volitivamente livre, isto é, através do axioma de que as estruturas sociais podem ser pensadas como entidades exclusivamente exteriores aos indivíduos, os quais seriam capazes de escolher livremente entre vias diversas de conduta dentro dos limites especificados por aquelas estruturas. Segundo Bourdieu, esta tese reabilitaria, de maneira fictícia e associológica, um retrato do agente como sujeito puro e desenraizado cuja personalidade é capaz de confrontar-se com o mundo sócio-histórico exterior, mas permanece, ao mesmo tempo, impermeável às marcas dos seus contextos de ação e experiência.

A consequência de tal tipo de perspectiva costuma ser a de se tomar a sociedade apenas como restritiva, isto é, uma fonte de proibições exteriores aos cursos de ação possíveis aos atores; enquanto a insistência de Bourdieu sobre a moldagem socializante da subjetividade individual implica considerá-la como simultaneamente restritiva e habilitadora, na medida em que fornece àqueles atores uma pletora de recursos (cognitivos, práticos, expressivos etc.) com os quais eles se tornam aptos a contribuir para a reprodução ou transformação das formações sociais mais amplas em que estão imersos. Neste sentido, apenas se pensássemos nas referências à liberdade do ator como designativas não de uma suposta impermeabilidade de suas operações subjetivas a processos causais (à maneira de Sartre), mas simplesmente da contribuição causal específica exercida por suas escolhas, decisões, intenções, habilidades e recursos (em suma, por sua subjetividade) no fluxo da vida societária é que poderíamos afirmar que Bourdieu subscreve a tese de sua existência e de sua indispensabilidade na explicação sociológica. Ele apenas destacaria, no entanto, que tal “liberdade” não constitui um resíduo associal, mas, ao contrário, deriva do processo de formação social do agente:

O habitus oferece a única forma durável de liberdade, aquela dada pelo domínio de uma arte, qualquer que seja. (...) Essa liberdade tornada natureza... é adquirida, paradoxalmente, pela submissão obrigada ou eletiva aos condicionamentos do treinamento e do exercício..., como o é a liberdade em relação à linguagem e ao corpo que é chamada facilidade (BOURDIEU, 1999, p. 340).

De qualquer modo, a fidelidade ao ideal de cientificidade que Bourdieu reivindica apaixonadamente tem como corolário, a seu ver, a submissão da sociologia à premissa metodológica do determinismo, a qual “nenhuma ciência poderia negar sem se negar como tal” (BOURDIEU et al., 2000, p. 26), postulado-guia ao qual não seguiria a assertiva de que os seres humanos não agem conforme escolhas e orientações (sejam elas mais ou menos opacas ou transparentes à sua consciência), mas que procura legar à análise sociocientífica da conduta humana a possibilidade de investigar o complexo de circunstâncias condicionantes ou determinantes de tais escolhas e orientações, não apenas sob a forma de coações instantâneas externas a uma dada ação, mas também daqueles fatores que moldaram a construção de uma personalidade e são continuamente reativados na produção da ação graças à mediação de uma subjetividade por eles socializada7.



7 Sociologia reflexiva e determinismo como ferramenta de libertação

Mesmo realçando ser o habitus o principal e mais frequente dentre os motores subjetivos das práticas, Bourdieu não rechaça a possibilidade de ações motivadas por deliberações reflexivamente articuladas pelos atores, apenas assinalando o fato de que tal forma de comportamento dependeria de condições sócio-históricas específicas de possibilidade. Afora os contextos de disjunção entre disposições subjetivas e condições objetivas que configuram o que ele chama de “efeito de hysteresis” (BOURDIEU, 1990c, p. 108), a procura pela obtenção do domínio reflexivo sobre o próprio habitus também poderia ser amparada pela sociologia, se mobilizada como um ferramental de autossocioanálise (BOURDIEU, 1990c).

O projeto de uma sociologia reflexiva assenta precisamente na possibilidade de que disposições impensadas de pensamento e comportamento possam ser racionalmente controladas ao acederem ao nível da consciência. Ainda que, no mais das vezes, Bourdieu sustente a importância da reflexividade, sobretudo como ferramenta metodológica indispensável ao trabalho sociocientífico, ele também veio a atribuir a esta um valioso papel ético-político, precisamente o de conscientizar os atores acerca dos determinismos sociais que pesam, externa e internamente, sobre suas condutas, abrindo aos agentes “a possibilidade de uma emancipação fundada na consciência ... dos condicionamentos por que se passou”; um conhecimento que poderia, ainda, dar ensejo ao cultivo reflexivo de novos habitus, isto é, de “novos condicionamentos duravelmente cunhados para contrabalançar...[os] efeitos” de uma socialização anterior (BOURDIEU, 1999, p. 340).

A despeito da diferença de teses e métodos, a referência implícita à psicanálise na noção de socioanálise deixa transparecer o embasamento comum no projeto socrático da autoconsciência como caminho emancipatório, isto é, no intento de expandir o alcance da autoconsciência humana para dimensões determinantes da sua conduta que, se deixadas intactas por esse trabalho reflexivo cientificamente informado, permanecem ocultas, reprimidas, inconscientes, dissimuladas. Nos termos da descrição antropomórfica que Freud (2006) nos oferece na sua segunda topologia da mente, o ego é um “pobre coitado”, esmagado entre os impulsos do id e as exigências e censuras do superego, instâncias entre as quais se estabelecem “formações de compromisso” internas que se manifestam com distorções semióticas em sonhos, atos falhos e sintomas neuróticos. Assim, como estratégia de combate a toda pletora de sofrimentos psíquicos derivados dessa condição, o médico de Viena erige como princípio básico da terapia psicanalítica o imperativo “onde havia id, que passe a haver ego” (Wo Es war, soll Ich Werden). A premissa desse lema é: quanto menos conhecemos nossos impulsos inconscientes, mais somos escravos e joguetes seus, mais eles nos controlam sem que sequer saibamos disso. Neste sentido, a primeira condição para o incremento da minha liberdade, concebida como capacidade de autodeterminação racional, consciente e deliberada, é precisamente o conhecimento das minhas disposições inconscientes de comportamento, dos móbeis que até então motivaram efetivamente minhas ações e representações sem que a eles eu tivesse acesso consciente.

Sendo, como Freud, um racionalista ético tremendamente sensível a toda a sorte de obstáculos impensados que necessitam serem enfrentados para a emergência da razão autônoma, Bourdieu persegue, no entanto, um inconsciente distinto daquele teorizado pelo pai da psicanálise: as propensões práticas de comportamento que configuram nosso modo de ser no mundo. Se “o verdadeiro inconsciente é a história” (Durkheim), o analista-analisando sociologicamente municiado pelo pensamento de Bourdieu, pensando a teoria do habitus sob a égide do princípio “De te fabula narratur(para citar o epigrama caro a Marx), conhece a si mesmo como “história feita corpo”, personalidade socialmente constituída, ser dotado de um habitus que, em princípio, o possui mais do que é possuído por ele. Embora a veia desencantadora dessa senda de análise seja insofismável, esse mesmo esforço sociológico-reflexivo de “anamnese” (na expressão de origem platônica recuperada por Bourdieu) constitui uma via de acesso a um trabalho de autoapropriação. Em uma esfera de realidade onde não estão em vigência as leis trans-históricas da natureza, reconhecer as forças que agem sobre nós e, em particular, “dentro” ou “através” de nós, é adquirir uma ferramenta para agir sobre tais forças. Reivindicando uma tarefa “clínica” ou “délfica”8 para a sociologia, Bourdieu propõe a tese de que esta “liberta libertando da ilusão de liberdade” (BOURDIEU, 1990a, p. 28). Isto significa que a possibilidade de liberdade oferecida pela objetivação dos condicionantes societários do pensamento e da conduta vai além do simples (sic) “reconhecimento da necessidade”. Uma vez que as “necessidades” operantes no mundo social são historicamente constituídas e reproduzidas através das ações e representações dos atores humanos, o reconhecimento daquelas por parte dos agentes pode constituir o preâmbulo ao seu questionamento, combate ou destruição. Assim, em uma singular combinação entre “pessimismo do intelecto” e “otimismo da vontade”, Bourdieu poderia chegar a dizer que o determinismo de seu enfoque teórico-sociológico é precisamente o que faz de sua sociologia uma ferramenta libertária.



8 Conclusão

Buscamos localizar a teoria social de Bourdieu nos debates acerca da natureza da explicação causal e da compreensão interpretativa, bem como da alegada (in)compatibilidade entre tais procedimentos, nas ciências sociais. A proposta de uma transcendência praxiológica da antinomia objetivismo/subjetivismo foi apresentada em sua conexão com a ideia bourdieusiana de que, longe de serem concebidas como modos de inteligibilidade distintos (quanto mais incompatíveis), a explicação e a compreensão das condutas humanas em sociedade deveriam ser pensadas como um único procedimento teórico-metodológico. Sendo o desiderato de tal procedimento a objetivação “dos condicionamentos inseparavelmente psíquicos e sociais” que os atores incorporam em função de uma “posição ... e ... trajetória particulares no espaço social” (BOURDIEU, 2003, p. 699-700), a abordagem de Bourdieu revela-se abertamente determinista, comprometida com a identificação científica das causas dos cursos particulares de agência humana e processos sociais que caem sob seu foco.

Por outro lado, o “momento subjetivista” da teoria da prática - devotado ao diagnóstico de como as propriedades estruturais objetivas do universo social são historicamente reproduzidas e/ou transformadas por meio de práticas subjetivamente propelidas por interesses e competências socialmente adquiridos - deixa patente que o compromisso com o determinismo como princípio-guia do trabalho (socio)científico não implicaria “reduzir a tarefa da explicação sociológica às dimensões de um objetivismo” (BOURDIEU, 2000, p. 29). Por fim, verificamos como, na perspectiva de Bourdieu, essa mesma sociologia “determinística”, ao trazer à luz os complexos mecanismos que engendram as práticas sociais, poderia dar ensejo a um trabalho emancipatório de libertação reflexiva em relação aos mesmos. Se a consideração a priori dos agentes no mundo social como livres sujeitos de seu próprio destino é, ao mesmo tempo, empiricamente irrealista e politicamente perigosa, a sociologia que se empenha com diligência no registro dos limites da liberdade humana pode esperar progredir não apenas no diagnóstico fidedigno do que acontece no universo societário, mas também na contribuição ético-política à ampliação do alcance efetivo de tal liberdade.



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1Uma versão preliminar desse artigo foi apresentada no Grupo de Trabalho “Teoria Sociológica” do XV Congresso Brasileiro de Sociologia, em Curitiba. Agradeço aos professores Marcio de Oliveira, José Luiz Bica, Raquel Weiss e Marcia Consolim pela acolhida generosa que recebi no GT.

2Nesse sentido, o “individualismo metodológico” e a centralidade da análise intencional preconizados pelo sociólogo alemão não importavam em uma concepção pouco sensível seja ao caráter social e historicamente situado e coagido da agência individual e de seus motores subjetivos, seja ao fato de que as ações societárias tendem a produzir efeitos que escapam às intenções e finalidades que as propeliram - como ele reconheceu, é claro, em seu opus classicus sobre a “afinidade eletiva” (Goethe) entre a ética do protestantismo ascético e o espírito do capitalismo moderno (WEBER, 1967).

3Desnecessário dizer que muitos cientistas sociais estariam dispostos a defender, contra Neurath, a absoluta indispensabilidade de um ou mais cafezinhos.

4Luís de Gusmão explica como essa distinção foi compreendida no seio de diversas tradições da filosofia da ciência no século XX: o contexto da descoberta referir-se-ia ao “conjunto de condições, naturais e sociais, associadas à gênese de uma determinada idéia (sic), legítimo objeto de investigações empíricas”, enquanto o locus intelectual da justificação abarcaria o “espaço das razões lógicas e metodológicas gerais, com base nas quais decidimos acerca da aceitabilidade ou não de enunciados ou sistemas de enunciados, sem levar em conta agora quaisquer circunstâncias vinculadas às suas origens, domínio exclusivo da reflexão epistemológica” (GUSMÃO, 2005, p. 17).

5A consideração durkheimiana do suicídio como “fato social”, no sentido preciso que ele oferece a essa expressão, implica o estabelecimento de uma distinção rigorosa entre a explicação da distribuição das taxas coletivas de suicídio nos países/sociedades por ele investigados e a descrição de toda a pletora de circunstâncias pessoais, perfis psicológicos e motivos subjetivos particulares dos suicidas considerados isoladamente. Tendo como lastro uma perspectiva holista (DURKHEIM, 1999), Durkheim busca assim explicar as variações nos índices de suicídio em contextos sociais diversos a partir das propriedades destes contextos considerados globalmente, sem qualquer referência à pluralidade de motivações específicas que levaram a cada suicídio individual.

6Ainda que esta terminologia de Veyne designe provavelmente apenas uma conveniência terminológica e não uma tese metafísica acerca das propriedades essenciais da condição humana.

7Aos que ... [me] ... imputariam...uma espécie de ‘partis-pris’ determinista, gostaria apenas de manifestar o espanto...que tantas vezes senti diante da necessidade que a lógica da pesquisa me levava a descobrir; digo isso não para me desculpar por alguma falta imperdoável contra a liberdade, mas no intuito de encorajar os que ficam indignados diante de tanta determinação no desvendamento dos determinismos a abandonarem a linguagem da denúncia metafísica ou da condenação moral, para situar-se, quando for possível, no terreno da refutação científica” (BOURDIEU, 2001, p. 185).

8Da clássica inscrição no templo de Delfos: “conhece-te a ti mesmo”.

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@ 2012 - PPGS - Revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE.

ISSN Impresso 1415-000X

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